25 ago 2015

Há alguns anos fechei um projeto de memória empresarial com uma empresa familiar paulista que estava prestes a completar 70 anos. Numa reunião para identificar as pessoas que seriam entrevistadas para a etapa de coleta de depoimentos, além de ex-empregados, colaboradores mais antigos e pessoas que testemunharam a história da empresa, sugeri entrevistar também as mulheres da família. Apesar de nunca terem trabalhado na empresa, muitas das decisões dos negócios se deram no ambiente doméstico, onde elas aparecem como testemunhas. Ao fim da reunião, o herdeiro da segunda geração, na ocasião com cerca de 80 anos, disse-me não entender porque eu deveria falar com as mulheres, a não ser se fosse para trocar receitas com elas. Tempo depois, quando o trabalho de coleta de informações estava encerrado e o livro escrito, este mesmo senhor pediu-me para incluir um capítulo sobre as mulheres. O capítulo foi acrescido, uma espécie de retratação tardia, mas nada mudou quanto aos negócios: as mulheres continuam como expectadoras de uma história empresarial familiar protagonizada pelo sexo masculino.

O relato desta experiência é demonstração de que quando emergimos no universo de uma empresa, para entender sua cultura e refazer seu trajeto histórico, revela-se uma rede invisível de relações que vai além do círculo organizacional, especialmente quando se trata de empresa familiar. Entender quem são estes atores, de que forma se movimentam neste cenário institucional e setorial, o que influencia na tomada de decisões e como se colocam no panorama econômico nacional é dar uma dimensão à micro história, como um fim que não se justifica em si. Este talvez seja o maior desafio imposto ao profissional que se dedica à memória empresarial: convencer seus clientes de que a memória corporativa vai além de um produto para se comemorar a data da fundação.

A pesquisa, que inclui registro de histórias orais e investigação documental, é parte importante do trabalho de construção desta história, que exige sistematização das informações e preservação do acervo para serem transformadas em fontes históricas. Sob este prisma, a constituição do corpo documental serve de subsídio para que a história seja contada. Engana-se quem pensa que a memória histórica está finalizada com a materialização do trabalho em publicações, CD, vídeo-documentários, exposição, filme, centros de memória, conteúdos para divulgação digitais, entre outras tantas formas de divulgação. É preciso dar uso às mesmas.

O registro e a organização do acervo é parte do trabalho do historiador, mas que não se justifica em si. Dar sentido ao corpo documental é com certeza o maior desafio, onde orientar a empresa quanto a melhor forma de uso deve vir depois. Em geral é o oposto do que acontece. Devo fazer a pesquisa para criar a subsídios para um livro de aniversário ou devo usar o mote do aniversário para me conhecer melhor, e identificar meu relacionamento com a sociedade, a inserção na economia, a influência de fatores conjunturais?

Toda organização possui seus valores, conhecimentos e diretrizes que definem sua cultura e a diferencia das demais. A cultura é única, e conhecê-la ajuda no entendimento de padrões de comportamento, em cujo campo a história se apresenta como uma ferramenta de conhecimento, atribuindo sentido aos fatos, humanizando os acontecimentos.

História não esquecida na profissionalização

No artigo “En el nombre de la família” publicado em 2005 na Harvard Business Review, Celso Hiroo Ienaga e Milton Gamez contam a história de um CEO de uma indústria têxtil familiar que decidiu adquirir uma fábrica sem ter consultado os sócios fundadores. Embora o texto tenha o objetivo de analisar os limites do poder executivo profissional em uma empresa familiar, a história inspira também uma reflexão sobre a importância da memória empresarial no processo de profissionalização da gestão em empresas familiar e aliada na gestão. Se o CEO conhecesse os valores e a história da empresa, tirando partido de decisões do passado para justificar o novo passo em consonância com a cultura da empresa, talvez tivesse agido de outra forma para atingir o fim que desejava. Ele descartou o passado, a história e a experiência. História, aliás, que continua a ser contada todos os dias.

Não é à toa que fundar, criar e construir são, do ponto de vista gramatical, verbos transitivos. Eles pedem complemento, explicação. Em última instância, uma ação que gera frutos. No plano subjetivo, a origem ganha uma conotação mítica que valoriza o criador, pelo legado que consegue deixar, e diferencia seus herdeiros dos meros mortais.

O trabalho investigativo do historiador ajuda a entender fragilidades, os mecanismos de decisão e o fluxo de informação dentro das organizações. Como diz o célebre historiador francês Marc Bloch: “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”.

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